Em abril de 2020, Mark Pollard publicou em Strategy Is Your Words uma taxonomia que deveria ter perturbado o mercado mais do que perturbou. Ele listou 16 tipos de ideia que coexistem na indústria da publicidade e do branding. Business idea. Product idea. Brand essence. Brand purpose. Brand promise. Brand idea. Brand platform. Brand tagline. Advertising idea. Campaign idea. Non-advertising idea. Content idea. Social idea. Platform idea. Tactic. Execution.
O fato de que a indústria precisa de 16 termos diferentes para a mesma palavra já é um diagnóstico. A palavra "ideia" perdeu precisão semântica. Uma equipe de estratégia usa "brand idea" em um sentido, o diretor de criação em outro, o cliente em um terceiro. Todos acham que estão falando da mesma coisa. Quase nunca estão.
O que Pollard fez foi cartografar o problema. O que ele não fez, porque seu livro tem outro propósito, foi explicar por que esses 16 tipos se confundem com tanta facilidade e por que essa confusão produz marcas incoerentes. A resposta está na semiótica: esses 16 tipos operam em níveis de significação fundamentalmente diferentes, e colapsar níveis distintos em uma única palavra produz ruído estrutural na construção de marca.
A estrutura que Pollard intuiu
Pollard organiza os 16 tipos em uma lista plana. Cada um recebe uma definição de uma frase. A lista não tem hierarquia explícita, e por boas razões: o objetivo do framework é nomear, distinguir e dar vocabulário ao estrategista. Isso já resolve parte do problema. Quando você sabe que "brand idea" e "campaign idea" são coisas diferentes, pelo menos para de usar as duas palavras como sinônimos.
O que a semiótica acrescenta é a estrutura vertical que falta. Esses 16 tipos não são 16 variações de uma mesma operação mental. Eles operam em planos distintos de abstração. Alguns são axiológicos: definem os valores profundos que organizam o sentido da marca. Outros são narrativos: estruturam como esses valores se desdobram em uma história contável. Outros são discursivos: traduzem a narrativa em formatos e linguagens concretas. E outros são manifestações de superfície: o ponto de contato final entre o signo e o público.
A confusão entre esses planos é o que produz incoerência. E a incoerência, em marca, é cumulativa e silenciosa.
Greimas e o percurso gerativo do sentido
Algirdas Julien Greimas, linguista e semioticista lituano-francês, propôs em Sémantique Structurale (1966) e desenvolveu ao longo de três décadas um modelo para descrever como o sentido é gerado, do nível mais profundo e abstrato ao mais superficial e concreto. Ele chamou esse modelo de percurso gerativo do sentido.
O percurso tem três níveis.
O nível profundo (ou fundamental) é onde operam as oposições semânticas básicas que organizam o universo de sentido de um texto, de uma marca, de uma cultura. São categorias binárias: vida/morte, natureza/cultura, liberdade/controle, individual/coletivo. Nesse nível não há personagens, não há narrativa, não há linguagem concreta. Há estrutura axiológica pura.
O nível narrativo é onde as oposições profundas se organizam em programas de ação. Sujeitos buscam objetos de valor. Há contratos, provas, transformações de estado. A narrativa é o mecanismo que converte valores abstratos em sequências de ação com sentido.
O nível discursivo é onde a narrativa se concretiza em figuras, temas, atores, espaços e tempos específicos. Um mesmo valor profundo ("liberdade") pode gerar narrativas diferentes ("rebelião contra o sistema" vs. "autoconhecimento"), que por sua vez se manifestam em discursos completamente distintos (um anúncio punk vs. um ensaio contemplativo).
O que Greimas demonstrou, e que o marketing de marca raramente absorve, é que a coerência de um texto (ou de uma marca) depende do alinhamento entre esses três níveis. Quando o nível discursivo contradiz o narrativo, ou quando o narrativo ignora o profundo, o resultado é ruído. O público sente a incoerência antes de saber nomeá-la.
Os 16 tipos de Pollard mapeados no percurso gerativo
Quando você sobrepõe a taxonomia de Pollard ao modelo de Greimas, os 16 tipos se organizam em quatro camadas que correspondem, com precisão considerável, aos níveis do percurso gerativo. A tabela abaixo formaliza o mapeamento.
| Nível | Tipos de Pollard | Função |
|---|---|---|
| Profundo (axiológico) | Business idea, Brand essence, Brand purpose | Definem os valores fundamentais que organizam todo o sistema de sentido da marca. Operam por oposição semântica: o que a marca é vs. o que ela recusa ser. |
| Narrativo | Brand idea, Brand platform, Brand promise, Product idea | Convertem os valores profundos em programas de ação com sujeitos, objetos de valor e transformações de estado. Estruturam a história que a marca conta ao longo do tempo. |
| Discursivo | Advertising idea, Campaign idea, Non-advertising idea, Brand tagline | Traduzem a narrativa em formatos, temas e figuras concretas. Cada um opera em um recorte temporal e em canais específicos, mas todos devem derivar da mesma estrutura narrativa. |
| Manifestação | Content idea, Social idea, Platform idea, Tactic, Execution | O ponto de contato final entre a marca e o público. Onde o signo encontra o interpretante. Cada manifestação é contextual, efêmera e subordinada ao nível discursivo que a originou. |
O mapeamento revela algo que a lista plana de Pollard não torna visível: existe uma relação de dependência vertical entre os níveis. A execução depende da campanha. A campanha depende da ideia de marca. A ideia de marca depende dos valores profundos. Quando um nível inferior opera sem referência ao nível superior, ele produz sentido desconectado. Pode funcionar isoladamente, pode até performar bem em métricas de curto prazo, mas não acumula significado para a marca.
Barthes e os níveis de significação
Roland Barthes, em Éléments de Sémiologie (1964) e em Mythologies (1957), descreveu um mecanismo complementar ao de Greimas que ajuda a entender por que a confusão entre os 16 tipos é tão resistente à correção.
Barthes mostrou que todo signo opera em pelo menos dois níveis de significação. O primeiro nível é a denotação: o sentido literal, direto, referencial. Uma fotografia de uma garrafa de vinho denota uma garrafa de vinho. Um logotipo denota o nome da empresa. Um anúncio denota o produto.
O segundo nível é a conotação: o sentido associado, cultural, ideológico. A mesma garrafa de vinho, dependendo do contexto visual, conota sofisticação, celebração, solidão ou rusticidade. O logotipo conota inovação, tradição, rebeldia ou conformidade. O anúncio conota valores que nenhuma das palavras do roteiro menciona explicitamente.
Quando a conotação se naturaliza ao ponto de parecer óbvia, universal e inevitável, Barthes diz que ela se tornou mito. O mito é a conotação que esqueceu que é conotação. "Apple = inovação" é um mito no sentido barthesiano: uma associação construída historicamente que se apresenta como natural.
Os 16 tipos de Pollard operam em diferentes pontos desse espectro denotação-conotação-mito. A execução (tipo 16) opera predominantemente no nível denotativo: é o que aparece, literalmente, na peça. A brand essence (tipo 3) opera no nível do mito: é uma afirmação tão abstrata que pretende ser a verdade profunda e irreversível sobre o que a marca significa. Tratar os dois como variações da mesma coisa é confundir o que algo mostra com o que algo significa.
As três confusões que a taxonomia expõe
Confusão 1: Tratar manifestação como estratégia
A mais comum. Uma campanha viral, um post que performou bem, uma ação de engajamento que gerou cobertura de imprensa. A tentação é transformar a peça que funcionou em "a ideia da marca". Isso é promover uma manifestação de superfície ao nível narrativo sem verificar se ela deriva dos valores profundos.
Na linguagem de Greimas: é tomar o nível discursivo pelo nível fundamental. O resultado é uma marca que muda de "ideia" a cada trimestre, porque cada manifestação que performa se candidata a ser a nova essência. A marca vira uma coleção de táticas desconectadas por um mesmo logotipo.
Confusão 2: Tratar estratégia como execução
A inversa. Uma brand essence como "empoderamento" é apresentada diretamente ao consumidor, sem tradução narrativa, sem figurativização discursiva, sem adequação ao canal. A abstração do nível profundo é jogada na superfície como se pudesse funcionar sem mediação.
O resultado são campanhas que parecem vazias. "Empoderamento" como slogan, como conceito criativo, como hashtag. Sem programa narrativo que dê substância ao valor, sem figuras concretas que o tornem reconhecível, sem contexto que o torne relevante. O valor profundo existe, mas chega ao público diluído ao ponto da insignificância.
Confusão 3: Operar apenas no nível discursivo
A mais sutil. A marca tem advertising idea, tem campaign idea, tem tagline. Todas são boas. Todas fazem sentido dentro de si mesmas. Mas nenhuma delas deriva de uma brand idea clara, que por sua vez derive de valores profundos articulados. O nível discursivo opera no vazio axiológico.
Kapferer, em The New Strategic Brand Management (Kogan Page, 2012), identificou esse fenômeno em marcas que ele chamou de "brand without roots": marcas com comunicação profissional, competente, esteticamente impecável, e completamente intercambiáveis. Sem estrutura profunda, a camada discursiva pode ser bem executada e ainda assim ser vazia. A excelência formal mascara a ausência de sentido.
A hierarquia como método de diagnóstico
O percurso gerativo de Greimas, quando aplicado à taxonomia de Pollard, funciona como ferramenta de diagnóstico de coerência estratégica. O método é simples e impiedoso.
Comece pelo nível profundo. Pergunte: quais são as oposições semânticas fundamentais que organizam o universo de sentido desta marca? O que ela é vs. o que ela recusa ser? Se a resposta for vaga ("inovação", "qualidade", "paixão"), o nível profundo está indeterminado. Tudo o que vier abaixo vai ser arbitrário.
Suba ao nível narrativo. A brand idea e a brand platform derivam das oposições profundas? Existe um programa narrativo coerente, com sujeito, busca e transformação? A brand promise faz sentido dentro dessa narrativa, ou é uma frase de efeito desconectada?
Suba ao nível discursivo. As campanhas, os formatos, as taglines traduzem a narrativa de marca com consistência? Ou cada campanha inventa uma nova linguagem, novos temas, novas figuras, como se a marca estivesse começando do zero a cada briefing?
Chegue à manifestação. As execuções, as táticas, os conteúdos, as presenças em redes sociais carregam os signos discursivos de forma reconhecível? Ou cada peça parece ter sido feita por uma equipe diferente que nunca viu o que veio antes?
Para cada peça de comunicação da marca, faça o percurso inverso. (1) Manifestação: o que esta peça é, literalmente? (2) Discurso: qual ideia de campanha ou publicidade ela executa? (3) Narrativa: essa ideia de campanha deriva de qual brand idea ou brand platform? (4) Profundo: essa brand idea articula quais valores fundamentais, e contra o quê? Se o percurso quebra em qualquer ponto, a peça está desconectada. Pode funcionar, pode performar, mas não acumula significado para a marca.
O que isso muda na prática
A primeira coisa que muda é o vocabulário. Depois de ler Pollard com lente semiótica, fica difícil aceitar que alguém diga "a ideia" sem especificar de qual nível está falando. Uma reunião de briefing onde "a ideia" pode significar brand essence para o estrategista, campaign idea para o criativo e tactic para o cliente é uma reunião onde três pessoas estão discutindo coisas diferentes com a mesma palavra. A taxonomia de Pollard, combinada com a hierarquia de Greimas, transforma essa conversa.
A segunda coisa que muda é o critério de avaliação. Quando você sabe que uma campanha opera no nível discursivo e que esse nível precisa derivar do narrativo, a pergunta de avaliação deixa de ser "essa campanha é boa?" e passa a ser "essa campanha traduz a narrativa de marca de forma coerente?". Uma campanha pode ser criativa, esteticamente impressionante e completamente desconectada da marca. A hierarquia vertical é o que permite distinguir entre excelência formal e coerência estratégica.
A terceira coisa que muda é o diagnóstico de incoerência. Marcas incoerentes são, quase sempre, marcas que operam em um nível sem ter resolvido os níveis anteriores. A execução perfeita de uma ideia que não tem raiz axiológica é incoerência disfarçada de competência. O percurso gerativo desmonta essa ilusão.
Pollard deu nome aos 16 tipos. Greimas explica por que são 16 e como se organizam. A combinação dos dois transforma uma lista útil em um instrumento de diagnóstico estratégico. A pergunta para qualquer marca é a mesma: em qual nível você está operando, de qual nível acima esse nível deriva, e o que acontece quando a derivação se rompe?
A resposta, na maioria dos casos, é ruído. E ruído, em marca, é invisibilidade.
Referências
- →Pollard, Mark. Strategy Is Your Words. Mighty Jungle, 2020.
- →Greimas, Algirdas Julien. Sémantique Structurale: Recherche de Méthode. Larousse, 1966.
- →Greimas, Algirdas Julien & Courtés, Joseph. Sémiotique: Dictionnaire Raisonné de la Théorie du Langage. Hachette, 1979.
- →Barthes, Roland. Éléments de Sémiologie. Communications 4, Seuil, 1964.
- →Barthes, Roland. Mythologies. Seuil, 1957.
- →Floch, Jean-Marie. Sémiotique, Marketing et Communication: Sous les Signes, les Stratégies. PUF, 1990.
- →Kapferer, Jean-Noël. The New Strategic Brand Management: Advanced Insights and Strategic Thinking. 5th ed., Kogan Page, 2012.
- →Semprini, Andrea. Le Marketing de la Marque: Approche Sémiotique. Liaisons, 1992.
- →Hjelmslev, Louis. Prolegomena to a Theory of Language. University of Wisconsin Press, 1961 [1943].
- →Peirce, Charles Sanders. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Vols. 1-6, Harvard University Press, 1931-1935.